câmera indiscreta – madan/ademir assunção

terça-feira, 1 de março de 2011

Eu queria ser bicho





Cansei de ouvir as notas noviças
Olhares nocivos sobre meus passos.
Cansei de ser dama, mulher delicada
Dos olhares satânicos e das Virgens Marias.
Cansei de ser santa, sardinha enlatada
Na sarjeta embolada sem vencimentos.
Cansei de ser as putas mãos de seda
Sem toque ou sapatilhas
Uma carícia ou ponta-pé
Sobre as notas espremidas
Na melodia do silêncio
Das curvas do meu corpo.
Eu queria ser bicho!
Amar como os bichos
Sem pedir licença!
Pecar sem pagar sentença!
Devorar tudo que me devora
Comer e ser a comida
Tocar e ser sentida
Com instintos sem extinção.
Rasgar no dente as marcas
Que rabiscam meu ventre
Entre espinhos e entulhos
Devorados por urubus.
Eu queria ser bicho
Me coçar nas folhas
Viver sem endereço
Desconhecer o preço
Que se paga por ser artista.
Eu queria ser bicho
Escapar deste zoológico
De produção em série
De desordem ilimitada
De humanos congelados
Nas agulhas do próprio ego.
Eu queria ser bicho
Caça e caçadora
Da liberdade
Que bate nas grades
De minha janela
Lambe minha face
E parte riscando o céu.



Alcinéia Marcucci
no blog
http://artedafemea.blogspot.com

Um comentário:

  1. Obrigada por compartilhar meus desabafos loucos!Ajudar minha alma a soltar meus bichos misturados aos gritos que fervem em minhas entranhas libertando minha arte das terras sem chão.
    Grande abraço
    Fique com Deus!!!

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