câmera indiscreta – madan/ademir assunção

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Hilda Hilst



Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro
Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.

Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.

Amavisse (1989)



Como si te perdiese, así te quiero.
Como si no te viese (habas doradas
Bajo un amarillo) así te comprendo brusco
Inamovible, y te respiro entero
Un arco iris de aire en aguas profundas.

Como si todo y más me permitieses,
Me fotografío a mí en unos portones de hierro
Ocres, altos, y yo misma diluida y mínima
En lo disoluto de toda despedida.


Como si te perdiese en los trenes, en las estaciones
O contorneando un círculo de aguas
Ave movediza, así te sumo a mí:
De redes y de ansias inundada.



É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.

E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.

A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.


Alcoólicas (1990)



Es cruda la vida. Asa de tripa y de metal.
En ella me despeño: piedra dilación herida.
Es cruda y dura la vida. Como un pedazo de víbora.
La como en la lividez de la lengua
Tinta, te lavo los antebrazos, Vida, me lavo
En lo delgado-poco
De mi cuerpo, lavo las vigas de los huesos, mi vida
Tu uña plomiza, mi abrigo rosso.

Y deambulamos de coturno por las calles
Púrpuras, góticas, ebrias de cuerpo y copas.

La vida es cruda. Hambrienta como el pico de los cuervos.
Y puede ser tan generosa y mítica: arroyo, lágrima
Ojo de agua, bebida. La vida es líquida.



Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.

E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.


Que este amor só me veja de partida.


Cantares do sem nome e de partidas (1995)



Que este amor no me ciegue ni me siga.

Y de mí misma nunca se perciba.
Que me excluya del estar siendo perseguida
Y del tormento
De sólo por él saber que estoy siendo.

Que la mirada no se pierda en los tulipanes
Pues formas tan perfectas de belleza
Vienen del fulgor de las tinieblas.

Y mi Señor habita el rutilante oscuro
De un supuesto de hiedras en el alto muro.

Que este amor sólo me haga descontenta
Y harta de fatigas. Y de fragilidades tantas
Yo me haga pequeña. Y diminuta y tierna
Como sólo suelen ser las arañas y hormigas.

Que este amor sólo me vea de partida.


Demora-te sobre a minha hora.
Antes de me tomar, demora.
Que tu me percorras cuidadosa, etérea
Que eu te conheça lícita, terrena

Duas fortes mulheres
Na sua dura hora.

Que me tomes sem pena
Mas voluptuosa, eterna
Como as fêmeas da Terra.

E a ti, te conhecendo
Que eu me faça carne
E posse
Como fazem os homens.

Da morte. Odes mínimas. (1980)



FILÓ, A FADINHA LÉSBICA

Poema de Hilda Hilst


Ela era gorda e miúda.
Tinha pezinhos redondos.
A cona era peluda
Igual à mão de um mono.
Alegrinha e vivaz
Feito andorinha
Às tardes vestia-se
Como um rapaz
Para enganar mocinhas.
Chamavam-lhe “Filó, a lésbica fadinha”.

Em tudo que tocava
Deixava sua marca registrada:
Uma estrelinha cor de maravilha
Fúcsia, bordô
Ninguém sabia o nome daquela cô.
Metia o dedo
Em todas as xerecas: loiras, pretas
Dizia-se até...
Que escarafunchava bonecas.

Bulia, beliscava
Como quem sabia
O que um dedo faz
Desce que nascia.

Mas à noite... quando dormia...
Peidava, rugia... e...
Nascia-lhe um bastão grosso
De início igual a um caroço
Depois...
Ia estufando, crescendo
E virava um troço
Lilás
Fúcsia
Bordô
Ninguém sabia a cô do troço
da Fadinha Filó.
Faziam fila na Vila.
Falada “Vila do Troço”.
Famosa nas Oropa
Oiapoc ao Chuí
Todo mundo tomava
Um bastão no oiti.

Era um gozo gozoso
Trevoso, gostoso
Um arrepião nos meio!
Mocinhas, marmanjões
Ressecadas velhinhas
Todo mundo gemia e chorava
De pura alegria
Na Vila do Troço.
Até que um belo dia...
Um cara troncudão
Com focinho de tira
De beiço bordô, fúcsia ou maravilha
(ninguém sabia o nome daquela cô)
Seqüestrou Fadinha
E foi morar na Ilha.
Nem barco, nem ponte
o troncudão nadando feito rinoceronte
Carregava Fadinha.
De pernas abertas
Nas costas do gigante
Pela primeira vez
Na sua vidinha
Filó estrebuchava
Revirando os óinho
Enquanto veloz veloz
O troncudão nadava.

A Vila do Troço
Ficou triste, vazia
Sorumbática, tétrica
Pois nunca mais se viu
Filó, a Fadinha lésbica
Que à noite virava fera
E peidava e rugia
E nascia-lhe um troço
Fúcsia
Lilás
Maravilha
Bordô
Até hoje ninguém conhece
O nome daquela cô.
E nunca mais se viu
Alguém-Fantasia
Que deixava uma estrela
Em tudo que tocava
E um rombo na bunda
De quem se apaixonava.


Moral da estória, em relação à Fadinha:
Quando menos se espera, tudo reverbera.


Moral da estória, em relação ao morador
da Vila do Troço:
Não acredite em fadinhas.
Muito menos com cacete.
Ou somem feito andorinhas
Ou te deixam cacoetes.

Extraído de BUFÓLICAS. São Paulo: GLOBO, 2002
ISBN 85-250-3490-8



É pouco conhecida e difundida a “poesia pornográfica” da grande Hilda Hilst. A Editora Globo vem reeditando suas obras, em boa hora, para revelar todas as facetas desta extraordinária escritora. No caso das “Bucólicas”, com ilustrações de Jaguar. Merecem uma visita, sem preconceitos. Sobre a obra cabe o comentário da “orelha” do livro: “Há medidas, contudo, nestes versinhos bandalhos, predominantemente redondilhas e brancos: são as de fundação de um discurso que, em face do absurdo de tudo, articula política a humor, desengano a desmesura.”.


Ou, mais explicitamente, no comentário competente de Alcir Pécora:

“Todos esses livros estão longe da literatura pornográfica banal e recolhem verdadeiras gemas da matéria baixa, como antes já fizeram em língua portuguesa, autores excelents como Gregório de Maatos, Tomás Pinto Brandão, Bocage, Nicolau Tolentino, Bernardo Guimarães etc. Mais especificamente, Bufólicas é um exercício de estilo que parodia tanto fábulas antigas, com suas histórias de maravilhas que constituem alegorias morais, quanto contos de fadas.

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