câmera indiscreta – madan/ademir assunção

terça-feira, 12 de julho de 2011

Denise Emmer

foto: assis melo

TARDE NO MAR
Tarde e moleza marolas e mascavo
Nada suponho nada sei nada respondo
Não sei o nome do mundo
E seu patrono

Leio jornais em branco folhas velhas
Cartas passadas notícias reviradas
Do que me valem as novas utopias
Se o que me traz o mar
É uma garrafa vazia.



NAVIOSVenho ao cais esperar navios
Sucedem-se as altas vagas
Aceno sinais de estio
Às vesperas adiadas

Te aguardo e quando te espreito
Arrastam-se os segundos
O vento esticou o mundo
Nos cárceres dos estaleiro

Passam veios, horas largas
Nenhum sinal de teu fardo
Busco-te a cada entrada
O que me passas - passado.



IMAGINO
Imagino línguas de cães em meu vestido
Tocas meu corpo como se quebrasse um vidro
Lençóis da noite são as águas quentes
Que provocas com um beijo simplesmente

Imagino sombras secretas sobre um muro
Quando me abraças contra o portão escuro
A rara alfombra nos cobre de inverno
E eis que alcanço a glória do inferno.


Denise Emmer
 

segunda-feira, 9 de maio de 2011

AMÉLIA ALVES




A OUTRA HISTÓRIA DA ROSA (II)


A rosa tatuada,


ainda que posta ao alcance do nada,
sobrevive aos efeitos de seus espinhos,
quando se perde em pétala espalhada
por galhos secos da roseira em luto.
Cinzenta e violácea, tal figo em calda,
reveste-se de flor em fruto,
no que se assenta sobre o que respalda.
Diante do que se lhe avermelha
a rubor de paixão e sangue pisado,
ao pé do que se diz amado,
estende-se em jardim, insone e insistente,
inscrita a ferro e fogo em pele ardente,
na pressão do dedo – cravo em riste
que a transporta em trilha de caminho torto
quando se abre em rota insana e triste
– legenda de amor em perda e aborto.



MAR AMAR


A onda que chega e que some é espuma,
que se estende n’areia em toalha de bruma.
É teia se fazendo num sopro de vento
que alimenta e suspira meu último alento.


Depois que a luz se faz manhã de paz em dia,
como gota de sal ao temperar o peixe,
em milagre,distribuo pão e maresia,
antes que a paixão por aqui, então, me deixe.


E vou inventando cidade à beira-mar,
nos poros da terra em que enterrei tolos sonhos,
enquanto me inundo em dunas de azuis risonhos.


Navio e âncora, penso em te velejar,
afundar-te na maré que me experimenta,
indo e vindo na saudade e na tormenta.



O TIRO PELA CULATRA


Não, a mulher de verdade não sou eu.


Mas a abelha rainha


que se encontrou n´algum rei,
que se deu no que serei
de mar azul e noite de lua,
vindo-a-ser sereia.


Não, a mulher de verdade não sou eu.


Nem a que se virou, toda sua,
em dona de bordel,
no que será que se deu
por noite escura, claro céu.
E nuvem, manto em solidéu.
Não, a mulher de verdade não sou eu.


Abelha por mel e sol,
Solidão em dia que não transcorreu,
flor e feto lacrado em formol
da mulher que, de verdade,
não nasceu. Nem sou eu.



CILADA


Embaixo da escada, passei várias vezes,
por malquerer e sorte
— desavisada.
E depois, sem mais que nada,
por dor, paixão e morte,
inscrevi destino e sina — reveses.


Recebi do azar dotes e porte,
em primeira mão,
de sim em sim e não em não.
E fui seguindo, sem noite nem seita,
varando a madrugada,
embora sabendo de uivos e lobos, à espreita.



AÇÚCAR


é verde e veio
de cana caiana
sangrando
o suco operário
de muitos suores
e caldos
melados
fermentos
cachaça
melaço
e canaviais
roçados
de calos
nos pés e nas mãos
e bóia fria
marmita
— aceiros intermináveis
e joios e pedras
e foices
e folhas secas
estalando miséria.



DIÁSPORA


No útero da mãe África
fervilham seios que amamentam os filhos do amanhã
e costuram os tecidos da verdade temporã na América
de tantos escravos e navios negreiros aportados
na escuridão de brasis, jamaicas, cubas e haitis
– todos mortos pelas terras e serras maestras
de amanheceres construídos com baionetas e fuzis.


Em portos ricos e bahias, cantaremos a sorte
da sobrevivência sobre tanta morte.
No encontro com a terra te elegeremos – ilê-ayê,
e flutuaremos, como velas nascidas da renitência,
em aflitas razões, racismo e resistência,
ao som de atabaques, tambores e tamborins
e também assim faremos um samba na Mangueira
ou entoaremos um blues em New Orleans.


Vasculharemos tudo: instintos, sentimentos, religiões,
raízes indevassadas e meras intuições.
De onde nos tiraram as verdades,
sucumbiram saudades e lamentos.
E depois, ainda mais escravidão.


No ruir de tudo, memória e banzo.
O novo mundo é quando?

leia mais em http://www.palavrarte.com.br/

sábado, 26 de março de 2011

adriana calcanhoto

entre por esta porta agora





Vambora
Adriana Calcanhotto

Entre por essa porta agora
E diga que me adora
Você tem meia hora
Prá mudar a minha vida
Vem, vambora
Que o que você demora
É o que o tempo leva...

Ainda tem o seu perfume
Pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara?
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Dentro da noite veloz...

Ainda tem o seu perfume
Pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara?
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Na cinza das horas...

terça-feira, 22 de março de 2011

Glaucoma

http://arturgomes-fotografia.blogspot.com/



Meus olhos que ardem essa ânsia
de não ver um palmo de futuro
À frente, o paraíso da sacada
avistando o abismo de mil andares
Abaixo, pessoas circulam em cirandas
sem se dar as mãos

Eu, nessa terra de cego
esperando o rei
que enxergue a palavra
e me tatue
em alto relevo
me leia em voz baixa
não sem antes me arrancar
a pele e transformá-la
em Corão
profano

Lara Amaral
http://laramaral-teatrodavida.blogspot.com/




Disforme


Perdi os meus modos
Rasguei os modismos
Quebrei a moldura
Que molestava meu rosto.
Esfarelei as moléculas
Me reverei em cubos
Cones, cilindros
Seios nos olhos
Olhos nas coxas
Boca no sexo
Céu na boca
Língua nos ares
Comendo as moscas,
Palavras na sopa
Da área do barulho.
As múmias se levantam
Das pinturas cubistas
Tropeçam nas formas
Com a cara no concreto,
Ossos por todos os lados
Almas a navegar no céu,
Batucada com ossos
Umbigada de vento
Beijo de sopro mordido
No perfume que veste
A caveira ambulante
A mulher de cubos
Encaixada nos fósforos
Que ascende a alma
Riscando a vida
Na chama que chama
A vida que ascende e apaga
Num sopro só.
Quero me virar em cubos
Tinta, fogo, chama
Na cama, no ventre
De frentre, pra trás.....
No cais do País do Navegar
Vejo o barco voando
No sopro do vento
Penetrando as nuvens
Despindo os mares
Na fúria das marés
Que batem nos meus pés....


Alcinéia Marcucci

quinta-feira, 10 de março de 2011

clarice lispector



MUDANÇA


Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa. Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua. Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde você passa.

Tome outros ônibus.

Mude por uns tempos o estilo das roupas. Dê os seus sapatos velhos. Procure andar descalço alguns dias. Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.

Veja o mundo de outras perspectivas.

Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda. Durma no outro lado da cama... Depois, procure dormir em outras camas. Assista a outros programas de tv, compre outros jornais... leia outros livros.

Viva outros romances.

Não faça do hábito um estilo de vida. Ame a novidade. Durma mais tarde. Durma mais cedo.

Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.

Corrija a postura.

Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos temperos, novas cores, novas delícias.

Tente o novo todo dia. O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor.

A nova vida. Tente. Busque novos amigos. Tente novos amores. Faça novas relações.

Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, tome outro tipo de bebida, compre pão em outra padaria.

Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.

Escolha outro mercado... outra marca de sabonete, outro creme dental... Tome banho em novos horários.

Use canetas de outras cores. Vá passear em outros lugares.

Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes.

Troque de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro, compre novos óculos, escreva outras poesias.

Jogue os velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos despertadores.

Abra conta em outro banco. Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros, visite novos museus.

Mude.

Lembre-se de que a Vida é uma só. E pense seriamente em arrumar um outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais light, mais prazeroso, mais digno, mais humano.

Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as. Seja criativo.

E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino.

Experimente coisas novas. Troque novamente. Mude, de novo. Experimente outra vez.

Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso o que importa.

O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda !

Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não
vale a pena!

quinta-feira, 3 de março de 2011

Cora Coralina










Mulher da Vida


Mulher da Vida, minha Irmã.

De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades e
carrega a carga pesada dos mais
torpes sinônimos,
apelidos e apodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à-toa.

Mulher da Vida, minha irmã.

Pisadas, espezinhadas, ameaçadas.
Desprotegidas e exploradas.
Ignoradas da Lei, da Justiça e do Direito.
Necessárias fisiologicamente.
Indestrutíveis.
Sobreviventes.
Possuídas e infamadas sempre por
aqueles que um dia as lançaram na vida.
Marcadas. Contaminadas,
Escorchadas. Discriminadas.

Nenhum direito lhes assiste.
Nenhum estatuto ou norma as protege.
Sobrevivem como erva cativa dos caminhos,
pisadas, maltratadas e renascidas.

Flor sombria, sementeira espinhal
gerada nos viveiros da miséria, da
pobreza e do abandono,
enraizada em todos os quadrantes da Terra.

Um dia, numa cidade longínqua, essa
mulher corria perseguida pelos homens que
a tinham maculado. Aflita, ouvindo o
tropel dos perseguidores e o sibilo das pedras,
ela encontrou-se com a Justiça.

A Justiça estendeu sua destra poderosa e
lançou o repto milenar:
“Aquele que estiver sem pecado
atire a primeira pedra”.

As pedras caíram
e os cobradores deram s costas.

O Justo falou então a palavra de eqüidade:
“Ninguém te condenou, mulher...
nem eu te condeno”.

A Justiça pesou a falta pelo peso
do sacrifício e este excedeu àquela.
Vilipendiada, esmagada.
Possuída e enxovalhada,
ela é a muralha que há milênios detém
as urgências brutais do homem para que
na sociedade possam coexistir a inocência,
a castidade e a virtude.

Na fragilidade de sua carne maculada
esbarra a exigência impiedosa do macho.

Sem cobertura de leis
e sem proteção legal,
ela atravessa a vida ultrajada
e imprescindível, pisoteada, explorada,
nem a sociedade a dispensa
nem lhe reconhece direitos
nem lhe dá proteção.
E quem já alcançou o ideal dessa mulher,
que um homem a tome pela mão,
a levante, e diga: minha companheira.

Mulher da Vida, minha irmã.

No fim dos tempos.
No dia da Grande Justiça
do Grande Juiz.
Serás remida e lavada
de toda condenação.

E o juiz da Grande Justiça
a vestirá de branco em
novo batismo de purificação.
Limpará as máculas de sua vida
humilhada e sacrificada
para que a Família Humana
possa subsistir sempre,
estrutura sólida e indestrurível
da sociedade,
de todos os povos,
de todos os tempos.

Mulher da Vida, minha irmã.


Declarou-lhe Jesus: “Em verdade vos digo que publicanos e meretrizes vos precedem no Reino de Deus”.
Evangelho de São Mateus 21, ver. 31.

Poesia dedicada, por Coralina, ao Ano Internacional da Mulher em 1975.
Poemas dos becos de Goiás, Global, 1983 - S.Paulo, Brasil

adélia prado


Objeto de Amar


De tal ordem é e tão precioso
o que devo dizer-lhes
que não posso guardá-lo
sem que me oprima a sensação de um roubo:
cu é lindo!

Fazei o que puderdes com esta dádiva.
Quanto a mim dou graças
pelo que agora sei
e, mais que perdôo, eu amo

Dia


As galinhas com susto abrem o bico
e param daquele jeito imóvel
- ia dizer imoral -
as barbelas e as cristas envermelhadas,
só as artérias palpitando no pescoço.
Uma mulher espantada com sexo:
mas gostando muito.


Pranto Para Comover Jonathan


Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.


Poema Começado no Fim


Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.


Exausto


Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.


(in "Bagagem" São Paulo: Ed.Siciliano, 1993)


Explicação de poesia sem ninguém pedir


Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.


(in Bagagem)


Casamento


Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.


O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.